João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 02/02/2018 09:22

Não Estão Mais Entre Nós

O quadro de nossas amizades, formado no decorre dos anos, depois de completado na sua plenitude, logo entra em cena a ação devastadora do tempo, monstruosa divindade que leva em seu séquito a insensível morte que na visão de certo escrito é um câncer que leva no cerne as nossas pretensões à felicidade, bem com a sinistra função de desfigurar a beleza de um quadro de agradáveis lembranças. É igual a vida que ao surgir e se expandir até seus limites, permite-nos ver, num movimento de refluxo, os claros na tela deixados por nossos entes queridos.

Dentro dessa visão, afora nosso círculo, fomos testemunhas de grupos, geralmente senhores da terceira idade, que em seus momentos de lazer, quer para degustar uma boa cerveja ou para disputar partidas de gamão ou dominó, em local habitual, ver o lento desaparecimento dessas cenas que primavam por uma alegre descontração. Mesmo sem termos participado dos mesmos, não deixamos de sentir, por empatia, uma ponta de tristeza pelo desaparecimento desses grupos que nos últimos anos de suas vidas carregavam e souberam aproveitar o pequeno saldo de seus momentos de felicidade. É exatamente na velhice que percebemos de uma forma acentuada o vazio deixado pelos que se foram, conhecidos, parentes e amigos, sugados pela implacável voracidade da morte. Esse processo, inevitável pela sua natural trajetória que se alterna entre a vida e a morte, curiosamente nos leva para a estatística e ficarmos convencidos que do outro lado existem pessoas mais queridas, interessantes e divertidas do que do lado de cá.

Constatada essa convicção que nos transporta para momentos de nostalgia, somos também levados, simultaneamente, a fazer reflexão sobre a vida presente e o que será depois da nossa partida. Será o fim ou passaremos a viver em outra dimensão? Perante essa dúvida, duas correntes se contrapõem, uma de ordem sentimental e a outra embasada numa avaliação racional. Naturalmente, diz-nos o sentimento, gostaríamos de reencontrar os nossos entes queridos. A razão, por sua vez, pergunta: como se dará esse reencontro no plano espiritual? Cheio de emotividade e grande alegria? Sendo o espírito invisível e algo tão tênue, se é que existe após a dissolução do corpo, como imaginar que possa dispor das sensações que são a razão de viver? Custa-nos acreditar que a espiritualidade, paradoxalmente, se é que existe um paradoxo, possa persistir sem o corpo material e seus órgãos específicos como o cérebro e coração, por meio dos quais ela se manifesta. Não acreditamos, como acreditavam os pitagóricos e Platão, que o espírito antecedeu ao corpo, encontrando-se preso ao mesmo por uma transgressão até o dia que será totalmente liberado. No nosso entendimento são simultâneos e existencialmente se complementam, não existindo um sem o outro.

 Será sempre uma matéria controversa, irresistível até para dar o indispensável condimento da vida. Eis porque se os mistérios por um lado nos angustiam e atormentam, por não podermos desvenda–lós, por outro, se pudéssemos faze-los, a vida seria bem mais trágica pela perda de sentido, mergulhada num total vazio.
 

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